Entrevista: Randolpho Bittencourt (re)conta o início do Curso de Relações Públicas na Ufam – Parte 1

Randolpho de Souza Bittencourt

Randolpho de Souza Bittencourt

No dia 27 de março de 2012 um dos fundadores do curso de Relações Públicas da Universidade Federal do Amazonas, o advogado, professor, especialista em Administração Pública Randolpho de Souza Bittencourt, concedeu aos profissionais de Relações Públicas Danilo Egle Santos Barbosa, Inara Regina Batista da Costa e Jonas da Silva Gomes Júnior a seguinte entrevista

1.      Como foi o surgimento do curso de Relações públicas na UFAM?

RSB: Permitam-me um preâmbulo para falar sobre os antecedentes que condicionaram o interesse da Universidade pelo curso. O primeiro curso de Relações Públicas oferecido aqui em Manaus foi dado em função de um convênio entre o Governo do Estado do Amazonas e o Instituto Brasileiro de Administração de Empresas, trata-se de um instituto que existia naquela época, em São Paulo. O objetivo era preparar pessoas para esse trabalho, pois o governo pretendia na reforma administrativa criar um sistema de Relações Públicas para o governo, em todas as secretarias e autarquias do Estado. Com a ideia de criar esse conjunto sistêmico de assessorias é que foi celebrado o referido convênio para que fosse dado o primeiro curso aqui. A partir dele, surgiu à primeira ideia do curso de Relações Públicas no governo do Estado. É interessante notar que naquele tempo havia um cuidado pelo governo militar da utilização de RP. Eles sabiam que deveriam tentar algum trabalho perante a opinião pública brasileira já que era um governo ditatorial. Havia o interesse de instrumentalizar o Governo Federal e partir, então, para o Governo do Estado dessa atividade de Relações públicas. É claro que com uma intencionalidade voltada para a ideologia que eles tinham no sentido de comunicação com a opinião pública, a coletividade, etc. Isso começou a vir para Manaus, como também deve ter havido em outros Estados. Eu peço permissão para fazer um parêntese. Ainda hoje há certo descaso com essa posição acadêmica no Amazonas, sobretudo em Manaus, mas nós temos pontos focais que desmentem isso. Por exemplo, ainda no governo militar essa questão de Relações públicas, começou praticamente aqui em Manaus dentro da região Norte. Por outro lado, quando a Constituição Federal de 1988 criou o artigo nº39 determinando que o Distrito Federal e outros Estados tivessem escolas de formação de gestores públicos, aqui na cidade, desde 1965 nós já tínhamos a ESPEA que foi extinta quando se criou a UEA. Então, percebe-se que tais fatos caem no esquecimento, pois, não há uma memória histórica devidamente trabalhada. Na grade curricular do curso de Administração nós inserimos a matéria Relações públicas. Nessa época eu lecionei duas disciplinas que era “Teoria e técnica de RP” e a outra “Teoria da Opinião Pública”. Naquele tempo, em termos de panorama nacional, a maior ênfase de Relações Públicas acontecia nos cursos de Administração, acreditava-se que as Relações públicas deveriam fazer parte da formação do administrador pelo fato de que o administrador irá utilizá-la em empresas e repartições. Eu preparei um trabalho que foi apresentado no congresso interamericano onde eu esboçava essa ideia da inserção de RP no curso de Administração. Posteriormente, ele vai para a área de Comunicação. Assim, aparece essa questão de Relações públicas, Jornalismo, Publicidade e Propaganda, etc. A meu ver, esse foi o preâmbulo histórico de toda a ideia que se teve de Relações públicas aqui no Estado.

 

2.      Como ocorreu essa passagem de uma disciplina de Administração para o curso de Comunicação? Da unidade FES para a unidade ICHL?

RSB:  Foi criado o curso de Comunicação Social como bacharelado dentro do Ministério da Educação no Governo Federal. Tratava-se de um curso geral, ambivalente, posteriormente, o ministro da educação enviou para todas as Universidades para que o curso fosse reorganizado em duas vertentes. O reitor criou uma vertente para fazer essa bifurcação do curso de Comunicação social que era amplo, a equipe foi constituída por pessoas de apoio e de dois professores da UFAM. Fui designado pelo reitor na parte de Relações públicas e o prof. Walmir Albuquerque Barbosa ficou responsável pela organização do curso de Jornalismo. Juntamente com o Walmir, eu fiz uma pesquisa de opinião a respeito da possibilidade da criação desses cursos. Nela ficou condicionada a ideia da possibilidade de se criar o bacharelado de Relações Públicas separadamente do bacharelado de Jornalismo. Nessa altura, acontecia a vinculação de RP no curso de Administração, até por que o curso de Comunicação acontecia no sentido ambivalente pertencendo ao ICHL, ao passo que Relações públicas se encontrava vinculado a FES, a antiga Faculdade de Ciências Econômicas. Com isso as Relações Públicas ficaram restritas apenas a uma matéria do curso de Administração. Atualmente, eu creio que a referida disciplina já tenha sido extinta da estrutura curricular. Sendo assim, tudo foi transferido para o ICHL e nesse momento foram criadas duas formações de bacharelado (duas habilitações) dentro do curso de Comunicação Social.

3.      Qual foi a maior dificuldade encontrada?

RSB: A maior dificuldade que nós tivemos foi à de impor a necessidade e a condição acadêmica de um curso de bacharel em Relações públicas. Pois existia toda a idiossincrasia de que é um moço de recados ou uma espécie de secretário particular, etc. No curso de Administração, eu era originário de lá, eu tinha mais força como professor antigo e fundador do curso etc. No curso de Administração eu tinha condições para mostrar que Relações Públicas é importantíssimo, inclusive para o governo socialista, e  também tem a sua importância em termos institucionais na sociedade civil para instituições como os partidos políticos, por exemplo. Sempre defendi isso! Ao passo que no curso de Comunicação encontrei dificuldades, pois os alunos eram de classe média alta da cidade de Manaus e não possuíam uma noção correta da coisa. Mas, graças a Deus, essas duas disciplinas me capacitaram a defender a aplicação de Relações Públicas. Foi uma fase difícil. Uma fase em que prevaleceu o conceito pessoal que se tinha do que o conceito que se lecionava. Eu acho que até hoje vocês devem ter certa dificuldade, primeiro com a questão do sistema capitalista, pois, interessa muito mais propaganda e marketing. Sempre houve uma tentativa do marketing “engolir” Relações públicas. Não houve nenhuma resistência do ponto de vista da estrutura superior da Universidade.

 

4.      E os primeiros docentes do curso de Relações Públicas?

RSB: Tínhamos o padre Argentinho Sesco quem lecionou a disciplina Ética aplicada, Jorge Karam da área de Pedagogia, Rui Alencar também foi docente. Professores de jornalismo também ministravam aulas em Relações Públicas, claro que na parte que lhes competiam, não havia essa separação acadêmica. Naquele tempo existia um ciclo básico que depois bifurcava nas habilitações de Relações públicas e de Jornalismo, de forma que havia essa condição de muitos professores darem aulas nos dois cursos.

 

5.      Quanto tempo você trabalhou no Departamento de Comunicação?

RSB: Eu não fazia parte do Decom, era emprestado. Eu fazia parte do Departamento de Administração (FES), e era requisitado para ministrar algumas disciplinas, pois havia trabalhado na época da implementação do curso. Mentalmente eu não tenho precisão de datas, porém, posso dizer que foi quando o Decom começou a ter os seus próprios professores através de concursos públicos. Em muitas seleções eu participei como membro da banca. Então houve a substituição natural, ou seja, eu não precisava mais dar aulas, pois já havia professores com competência para ministrá-las. Nessa época era tudo transitório, a Universidade estava se formando.

 

6.      Quais foram os desafios enfrentados para a implementação da habilitação de Relações públicas?

RSB: Em relação aos desafios, que eram muitos, se pensava que Relações públicas serviam para oferecer cafezinho, abrir portas dos carros oficiais, etc. Então, foram barreiras que nós tivemos que trabalhar. Na Universidade também houve uma situação de desafio e de dificuldades, porque no Brasil desde a antiga República, as coisas são feitas de cima para baixo, esse é o nosso problema de formação de opinião pública, etc. No caso do Ministério da Educação e da formação bifurcada do curso de Comunicação Social aconteceu a mesma coisa. Assessorado por sua equipe, o ministro da educação decide não manter aquela amplitude do curso de comunicação e define especializações profissionais dentro do mesmo curso. Isso que foi feito na UFAM também gerou problemas, através de uma determinação do ministro e de uma portaria do reitor da época. Por uma configuração básica a profissão de Jornalismo é muito mais antiga do que a profissão de Relações públicas, sendo assim, havia condições internas de um ser mais proeminente que outro. Uma conjectura era de que Relações Públicas deveria ficar no curso de Administração, porém, isso já estava disciplinado através de decisão ministerial e do Conselho Federal de Educação. Houve uma luta por parte dos professores, pois se tratava da época áurea da Universidade do Amazonas (UA), pois não existia a questão de professor ser 40h ou regime de dedicação exclusiva. Naquele tempo em que eu ministrava duas disciplinas no curso de Relações públicas, eu também assessorava o reitor para a área de docentes e discentes, dava aulas de Teoria da Administração e Planejamento Governamental no curso de Administração e Direito Administrativo no curso de Direito.

Confira a segunda parte da entrevista, clique aqui.
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